A internet parece uma praça pública. Não é. É uma série de estradas com pedágio pertencentes a gigantes das telecomunicações.
Essa distinção gerou uma tempestade em julho de 2006. O termo neutralidade da rede não era mais apenas um jargão de blog. Foi um campo de batalha legislativo. O Congresso, os líderes empresariais e os usuários comuns foram forçados a escolher um lado.
O conflito era binário. De um lado: provedores de telecomunicações e cabo. Esses eram os porteiros. Por outro lado: provedores de conteúdo como Google, Amazon e grupos de defesa como MoveOn.org.
Eles não estavam discutindo sobre tecnologia. Eles estavam discutindo sobre economia.
A definição de “não quebrado”
A neutralidade da rede parece simples. É a ideia de que os provedores de serviços de Internet (ISPs) devem tratar todos os dados na rede igualmente. Não há vias rápidas. Sem faixas lentas. Não há pagamento por prioridade.
Mas o debate girava em torno de uma única questão: o que está “quebrado”?
A Comissão Federal de Comunicações (FCC) acabara de desregulamentar o mercado de banda larga. Esta medida deu às empresas de telecomunicações liberdade teórica para cobrar tarifas diferentes para diferentes níveis de serviço. Eles alegaram que o mercado estava funcionando bem. Por que consertar isso?
Os defensores da neutralidade da rede viam um sistema à beira do colapso. Eles queriam regulamentações que obrigassem os ISPs a fornecer acesso de banda larga que tratasse todo o conteúdo da Internet da mesma forma.
Para as telecomunicações, a regulamentação era uma interferência. Para os neutralistas da rede, era proteção.
O modelo pago para jogar
Derrotar a neutralidade da rede significava entregar às telecomunicações o poder de monetizar o acesso. Eles poderiam cobrar de provedores de conteúdo como Google ou eBay para alcançar assinantes.
Pagar significaria mais do que apenas acesso. Isso significaria acesso preferencial.
Os ISPs argumentaram que precisavam dessa receita. Eles alegaram que sua infraestrutura estava envelhecendo. Os formatos de mídia emergentes exigiram atualizações. O dinheiro tinha que vir de algum lugar. Se os usuários não pagam o suficiente, os criadores de conteúdo deveriam pagar.
Os críticos viram um futuro diferente. Eles viram abuso.
Catherine Yang, da Business Week, alertou que as operadoras de rede poderiam bloquear sites populares em favor de seus próprios serviços. Ou poderiam degradar a entrega de páginas de empresas que não pagaram a mais.
Imagine o seguinte: a página inicial do Google carrega rapidamente. Um mecanismo de busca rival, apoiado pela operadora de rede, passa instantaneamente.
Este é o medo central. Os ISPs detêm as chaves. Sem neutralidade, eles seguram a coleira.
Aviso do Google
O Google não ficou em silêncio. A empresa emitiu uma declaração contundente.
“A Internet tem funcionado de acordo com este princípio de neutralidade desde os seus primórdios. Na verdade, é esta neutralidade que permitiu que muitas empresas, incluindo o Google, lançassem, crescessem e inovassem.”
O Google comparou operadoras de banda larga com companhias telefônicas. Você não poderia dizer à companhia telefônica para quem você tinha permissão para ligar. Você não poderia ditar o que poderia dizer.
Por que as operadoras de banda larga deveriam ter esse poder online?
Eles argumentaram que as operadoras estavam pedindo ao Congresso permissão para controlar qual conteúdo chegava primeiro à sua tela. E mais rápido.
Dois acampamentos, um objetivo
A retórica era confusa. Ambas as principais organizações afirmaram querer “salvar a Internet”. Seus métodos, porém, eram opostos.
HandsOff.org apoiou as telecomunicações. A sua missão era proteger a Internet da regulamentação excessiva do governo. Eles acreditavam que regras federais pesadas criariam incerteza. Essa incerteza sufocaria a inovação.
Argumentaram que as escolhas favoráveis ao consumidor de que desfrutamos hoje só existem porque o mercado foi deixado em paz.
SavetheInternet.com lutou pela neutralidade da rede. Seu argumento foi baseado em suposições.
Presumimos que podemos acessar qualquer site, a qualquer hora. Presumimos que podemos usar vídeos, podcasts, e-mail e mensagens instantâneas sem restrições. Presumimos que podemos conectar nossos próprios dispositivos para melhorar nossa experiência.
Essas suposições só são possíveis devido à neutralidade da rede. Este princípio impede que as empresas que controlam as ligações físicas discriminem o conteúdo com base na propriedade ou na fonte.
As apostas
O debate não foi apenas sobre largura de banda. Era sobre o futuro da web.
Sem neutralidade da rede, a Internet poderia dividir-se. Uma classe de “ricos” que podiam pagar por serviços premium. E uma classe de “despossuídos”.
Os despossuídos podem incluir a próxima grande novidade. Um pequeno podcast. Um videoblogger independente.
Se os serviços inovadores carregam lentamente ou não conseguem chegar aos utilizadores, porque é que as pessoas quereriam a banda larga?
Os operadores de rede poderão obter receitas a curto prazo. A Internet pode perder valor a longo prazo.
Quem perde no final?
Provavelmente todos.
A falsa escolha entre caos e controle
O debate sobre as regras da Internet muitas vezes fica preso numa armadilha binária. Por um lado, você tem o medo da anarquia. Por outro lado, o pavor de uma burocracia sufocante. Mas a realidade é mais confusa. É um continuum. Não há mercados livres sem o Estado de direito. Você precisa de regras. Eles garantem que o jogo é justo. Sem eles, você apenas terá caos ou regulamentação excessiva. Ambos matam a inovação.
Isto nos leva à questão específica: como a neutralidade da rede deve ser regulada para equilibrar justiça e investimento?
Uma mão pesada pode parecer protetora, mas o tiro pode sair pela culatra. Regras estritas e prescritivas poderiam impor todos os custos de construção de novas redes aos consumidores. Isso aumenta os preços. Isso desencoraja o investimento. Isso impede que o hardware seja atualizado.
Bloquear o tráfego está certo? Não. Interferir no tráfego existente é inaceitável. Essa é a linha de base. Mas se os operadores quiserem construir vias rápidas ao longo da via pública, deveriam ser autorizados a fazê-lo. Um conjunto mínimo de regras protege o princípio fundamental, ao mesmo tempo que deixa espaço para experimentação. As operadoras podem testar serviços premium. Eles podem inovar. A chave é evitar que bloqueiem o fluxo geral de dados.
Por que as leis antitruste já são suficientes
Alguns argumentam que a banda larga é única demais. Dizem que é tão essencial que o Congresso intervenha com regulamentos especiais. Eles afirmam que as telecomunicações irão mexer na entrega se forem deixadas de lado.
Mas será que precisamos de um novo regime federal apenas para a banda larga?
Provavelmente não. Os Estados Unidos já possuem uma série de leis antitruste. Estes existem para regular a concorrência e o acesso monopolista. Se o mercado não for competitivo, as ferramentas existentes existem para consertar isso. Regras especiais não são necessárias. Criam uma falsa sensação de segurança, ao mesmo tempo que ignoram os mecanismos reais do direito da concorrência.
A Internet não seria o que é hoje se o Congresso tivesse imposto a estase por decreto regulatório. O crescimento vem da flexibilidade. Não a partir de uma estrutura rígida que pressupõe que o modelo atual é o único modelo. Deixe a inovação continuar. Deixe o mercado funcionar. Se falhar, use as leis que já estão em vigor.
A verdadeira questão: inovação versus estase
Os defensores da neutralidade da rede muitas vezes pintam as telecomunicações como vilões à espera de espremer os utilizadores. Mas o maior risco é a estagnação. Se fixarmos regras rígidas agora, poderemos impedir as próprias inovações que tornam a Internet útil.
A simples verdade é que a regulação e os mercados livres não são opostos. Eles são parceiros. Você precisa de estrutura para jogar. Mas você não precisa reescrever o livro de regras toda vez que alguém tenta uma nova estratégia.
“A Internet não seria o que é hoje se o Congresso tivesse imposto a estagnação a ela por decreto regulatório.”
Não se trata de permitir que as empresas façam o que quiserem. Trata-se de reconhecer que a internet é um sistema vivo. Ela cresce. Isso muda. Ele se adapta. Quando tentamos congelá-lo no tempo com regras severas, não o protegemos. Nós matamos isso.
O que acontece quando o próximo grande serviço chegar? Um que requer baixa latência? Um que precisa de largura de banda garantida? As regras atuais permitirão isso? Ou eles irão forçá-lo a seguir a mesma via lenta de todo o resto?
Não temos que escolher entre anarquia e controle. Só temos que ser espertos sobre quais regras mantemos e quais descartamos. A internet já está aqui. Está funcionando. A questão é se confiamos nele o suficiente para deixá-lo continuar funcionando.

























